sexta-feira, 28 de agosto de 2009



"Aflição de ser eu e não ser outra. Aflição de não ser, amor, aquela Que muitas filhas te deu, casou donzela E à noite se prepara e se adivinha Objeto de amor, atenta e bela"
"Hilst nasceu na cidade de Jaú, interior do Estado de São Paulo, no dia 21 de abril de 1930, filha única do fazendeiro, jornalista, poeta e ensaísta Apolônio de Almeida Prado Hilst e de Bedecilda Vaz Cardoso. Com pouco tempo de vida, seus pais se separaram, o que motivou sua mudança, com a mãe, para a cidade de Santos (SP). Seu pai, que sofria de esquizofrenia, foi internado num sanatório em Campinas (SP), tendo nessa época 35 anos de idade. Até sua morte passou longos períodos em sanatórios para doentes mentais.”
Assim começa a vida de um dos nomes mais instigantes da nossa literatura.
Digo nome, pois Hilda Hilst foi por muito tempo apenas isso. Tachada de louca, bêbada, pornográfica, bruxa, hermética, puta, entre outros tantos “nomes”, sua literatura foi por muitos ignorada, e ela lamentava que só seria lida após sua morte. Para isso não acontecer, começa a escrever aquilo que o povo gosta de ler: obscenidades. Assim se fez.
Sua morte, em 2004, veio marcar uma série de entendimentos sobre sua obra. Até então, a mulher, que jurava ter visto OVNI’s na sua chácara em Campinas (chácara esta onde ela acolheu durante anos o escritor Caio Fernando Abreu e outros), foi apenas lida por alguns jornalistas e críticos. Nada mais...
O que encontramos em Hilda Hilst é sim um erotismo gritante, porém jamais escandaloso, nem mesmo pornográfico.
Hilda não hesitava em dizer ao excitado marido: “Vai foder com a empregada! Me deixe escrever!” E ri quando me diz que homem que gosta de mulher por cima é afrescalhado. Para horror das feministas, Hilda acha que o homem deve dominar a relação, deve – e cita Simone de Beauvoir – ser, de alguma forma, superior à mulher. Afirma que sempre buscou homens que possuíssem um destes atributos da divindade: poder ou beleza. Poder financeiro, poder intelectual, e até força bruta, a faziam sentir-se mais mulher. Beleza porque, como dizia Vinícius de Morais (aliás, ex-namorado de Hilda), é fundamental.
Aqui acaba essa minúscula coisa sobre Hilda Hilst. Para quem quis continuar, segue um texto belíssima da mulher. Para quem isso ainda for pouco, segue o site oficial. Para quem ainda quiser mais, sua obra foi republicada pela editora Globo. E se isso ainda não bastar, sussurra baixinho o nome Hilda... e logo lhe virá um calor na altura do ventre...
Tô só Vamo brincá de ficá bestando e fazê um cafuné no outro e sonhá que a gente enricô e fomos todos morar nos Alpes Suíços e tamo lá só enchendo a cara e só zoiando? Vamo brincá que o Brasil deu certo e que todo mundo tá mijando a céu aberto, num festival de povão e dotô? Vamo brincá que a peste passô, que o HIV foi bombardeado com beagacês, e que tá todo mundo de novo namorando? Vamo brincá de morrê, porque a gente não morre mais e tamo sentindo saudade até de adoecê? E há escola e comida pra todos e há dentes na boca das gentes e dentes a mais, até nos pentes? E que os humanos não comem mais os animais, e há leões lambendo os pés dos bebês e leoas babás? E que a alma é de uma terceira matéria, uma quântica quimera, e alguém lá no céu descobriu que a gente não vai mais pro beleléu? E que não há mais carros, só asas e barcos, e que a poesia viceja e grassa como grama (como diz o abade), e é porreta ser poeta no Planeta?
Vamo brincá...
de teta
de azul
de berimbau
de doutora em letras?
E de luar? Que é aquilo de vestir um véu todo irisado e rodar, rodar...
Vamo brincá de pinel? Que é isso de ficá loco e cortá a garganta dos otro?
Vamo brincá de ninho? E de poesia de amor?
nave
ave
moinho
e tudo mais eu serei
para que seja
meu passo
em vosso caminho.
Vamo brincá de autista? Que é isso de se fechá no mundão de gente e nunca mais ser cronista? Bom-dia, leitor. Tô brincando de ilha.
(Segunda-feira, 16 de agosto de 1993)
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