“O Albergue Espanhol” (ou “Uma Casa de Loucos”)O filme foi escrito e dirigido pelo aclamado diretor fracês Cédric Klapisch e conta, usando a narrativa em primeira pessoa, a história de Xavier, um estudante de Economia de vinte e poucos anos às vésperas de assumir um cargo público, por intermédio de um amigo de seu pai, se vendo na contingência de participar do famoso programa de intercâmbio estudantil “Erasmus”(nome dado em homenagem ao famoso filósofo Renascentista Erasmo de Rotterdam) pelo período de 1 ano para aprender a língua espanhola e garantir o emprego.
Levado a
Barcelona , a capital cosmopolita e ultra dinâmica da Europa pré-unificação - sem saber falar Espanhol, muito menos o Catalão, Xavier se vê em desespero por ter deixado uma vida confortável, mas estritamente burguesa, previsível e tediosa na França sob os auspícios de uma mãe hiponga, neurótica e superprotetora, e a influência da namorada chata e certinha Martine(interpretada por Audrey Tatou de “O Fabuloso Destino de Amelie Poulain” e “O Código Da Vinci”).
Sem saber onde morar e assombrado pelas dúvidas sobre o que o aguarda nesta viagem, ele conhece os recém casados Jean-Michel, neurologista de meia idade que o havia encontrado chorando no banheiro do avião, e a jovem e bela Anna-Sophie. Os três se tornam amigos e o casal acolhe Xavier em sua casa enquanto este não consegue encontrar um lugar para se hospedar definitivamente, o que se torna o ponto de partida para um romance surpreendente e proibido entre Xavier e Anna-Sophie.
Após conseguir ser aceito em um apartamento para estudantes, Xavier passa a conviver com os seus inusitados companheiros de jornada, o italiano Alessandro, o alemão Tobias, o dinamarquês Lars, a inglesa Wendy e a espanhola Soledad. P
orém a necessidade de diminuir os custos com o aluguel faz com que entre em cena a belga Isabelle colega de universidade de Xavier que logo se torna também a sua melhor amiga e sua mentora nas artes sexuais até então desconhecidas do jovem.
De fato essa multiplicidade cultural, de idiomas e personalidades com que se depara Xavier é nada mais que o reflexo da confusão mental e do deslumbramento do estudante - que poderia ser tomado como um jovem mimado de vida fácil - diante de suas incertezas e da busca pelo seu “ethos”; e as diferenças entre eles mais a falta de preconceitos de nacionalidade, sexo ou ideologia traz certa unidade “familiar” e uma cumplicidade entre estes indivíduos tão enstranhos entre si mas que vão aprender a se reconhecer como iguais diante dos desafios da vida em outro país.
O filme talvez peca um pouco em tentar manter um clima de alto astral mesmo nas horas em que os personagens se vêem mergulhados nas zonas mais abissais do drama de suas existências, deixando escapar algum excesso de romantismo e aventura já que boa parte da trama se desenvolve entre festas e romances e quase nos leva a crer que a vida é muito fácil quando se é jovem e de boa aparência em um país tão exótico e rico de beleza cultural e possibilidades de relações humanas, mas não se perde em frivolidades como as comédias de Hollywood e consegue manter o foco na questão do quanto conhecemos ou não a nós mesmos e àqueles com quem compartilhamos os nossos momentos mais felizes e sombrios.
No seu retorno à casa e tendo de enfrentar a realidade de um emprego burocrático o qual não se esforçou muito para conseguir, Xavier se sente novamente um estrangeiro afetado pela nova percepção de mundo e com a certeza recém adquirida de que o cinismo acabará sendo uma constante na sua “nova vida”. Que não poderá talvez mais contar com a emoção de se aventurar ingenuamente, mas que olhar para trás não traz nenhum benefício e o que dá sentido à vida é continuar seguindo em frente.
Esse filme, de final surpreendente, mais do que uma alegre estória sobre a transição de fase da vida de um jovem diante da diversidade do mundo se revela também uma fábula sobre o não se divorciar de si mesmo tendo de dividir o mundo com os outros, e sobre os choques e as surpresas da autodescoberta e é altamente recomendável, por este que vos escreve, para assistir com os amigos mais queridos.
Ps.: ainda não tive a oportunidade de assistir à continuação do Albergue Espanhol, que se chama “Les Poupées Russes” ou “As Bonecas Russas”, película que foi lançada em 2005 pelo mesmo diretor, mas já está devidamente inserida na pauta desta coluna para os tempos vindouros. Agradeço à leitura daqueles que se dispuserem prestar atenção a este humilde cronista e desejo uma ótima semana a todos, e aguardem novas postagens!
Por Marcelo Blue-9
